Todos os produtos da jataí (îate’í, em tupi-guarani) são utilizados amplamente no consumo de etnias indígenas. Entre elas, os Guarani Mbyá,  que convivem com diferentes espécies nativas do Brasil muito antes da invasão europeia.

Existem 7 mil Guarani Mbyá no país. São um dos três grupos da etnia Guarani – junto com os Ñandeva e os Kaiowá, com 13 mil  e 31 mil pessoas, respectivamente. 

Os Guarani espalham-se sete estados diferentes do país e também em países vizinhos, como Paraguai, Bolívia e Argentina. 

Confira cinco usos de produtos da jataí (Tetragonisca angustula) na aldeia Morro da Saudade, em São Paulo:

1. Chá contra males no aparelho respiratório

Para o tratamento e prevenção de resfriados, tosses e gripes, os indígenas preparam uma infusão de flores do mamão. A infusão é misturada ao mel de jataí. A bebida tem alto poder curativo.

Posteriormente, esse conhecimento tradicional foi “comprovado” pela ciência: as folhas e flores do mamoeiro são conhecidas por possuírem enzimas capazes de combater males como rouquidão, tosse e asma. Além de outras propriedades medicinais, o mel da jataí é conhecido por ser eficaz em amenizar sintomas de obstruções respiratórias e tratar infecções de brônquios.

2. Velas e Tambojape em ritual religioso

Indígena segura tambojape (Foto: Reprodução/Resistência Guarani SP)

Se aparenta a um pão pequeno e é um alimento preparado para um ritual religioso, onde os participantes agradem à natureza e ao deus.

Na ocasião, os participantes preparam velas com a cera da jataí. As velas são levada para a casa de rezas (opy) junto com erva mate e fumo de corda. O fumo é picado para ser usado nos cachimbos durante a cerimônia e a erva mate armazenada em uma cuia em uma espécie de altar.

As mulheres são responsáveis pelo preparo do tambojape. O “pão”, também conhecido como mbojape, é feito de uma massa elaborada com água, milho verde ralado e mel de jataí.

Após o término do ritual, os participantes levam uma porção do produto para casa, que é consumida na manhã seguinte pelos membros da família em jejum. O objetivo é energizar e renovar o dia.

3. Tratamento de problemas digestivos

Queimação, azia e dores estomacais são solucionados a partir da mastigação de potes de mel, alvéolos com larvas e potes de pólen. Os indígenas contam que mastigar vagarosamente e engolir estes produtos da jataí fazem desaparecer as dores em instantes. “Limpam o estômago”, define um entrevistado.

Potes de mel de abelha jataí (Foto: Júlia de Freitas)

 4. Chá para ficar calmo

Os guaranis também realizam infusões com determinadas ervas e misturam com mel da jataí para efeito sonífero e calmante.

“Às vezes é preciso que se dê para a pessoa poder conter aquele desequilíbrio, aquele nervosismo que passa pra todo mundo. Quando se dá pras crianças, elas logo dormem”, afirma indígena da aldeia Morro da Saudade

 

5.”Ytxy” contra o reumatismo

“Ytxy” corresponde à resina ou cerume utilizada pelas jataí para tampar frestas e ligar diferentes partes do ninho. Depois de torrar a resina no fogo com folhas, as crianças aplicam o produto nas articulações dos braços e pernas. O objetivo da prática milenar é evitar o reumatismo (kãgue raxy). 

 

Pesquisas mostram que os indígenas possuem amplo conhecimento de grupos indígenas sobre as abelhas nativas sem ferrão. São especialistas em organização, ciclos e modos de sobrevivência das espécies de abelhas das regiões onde habitam.

As informações do post foram coletadas pelo pesquisador Arnaldo Rodrigues em uma aldeia da etnia Guarani Mbyá localizada na zona periférica de São Paulo e deram origem à dissertação “Etnoconhecimento sobre Abelhas sem Ferrão: Saberes e práticas dos índios Guarani M’byá na Mata Atlântica” .

Para conhecer um pouco mais sobre a situação atual dos indígenas Guarani no Brasil, clique aqui.

 

 

Jornalista graduada pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).
Autora do livro-reportagem “Doce Sobrevida – apicultura como alternativa no assentamento Taquaral”.
Acredita nas palavras e na sobrevivência das abelhas.

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