O mel e o pólen da jataí provaram ser úteis como produtos bioindicadores de poluição do meio ambiente causado pela indústria mineradora.

As abelhas do gênero Apis são comprovadamente grandes bioindicadoras da presença de substâncias nocivas à saúde humana e ambiental.

Uma pesquisa mostrou que a jataí (Tetragonisca angustula), abelha nativa brasileira, possui o diferencial de polinizar espécies de flores de tamanhos menores, inacessíveis às Apis.

No dia 5 de dezembro 2015, um rompimento de barragem na cidade mineira de Mariana fez com que a cidade tomasse à força espaço nas manchetes de todo o país.

A tragédia anunciada soterrou casas e seres vivos em lama. Também soterrou a vida da cidade nos escombros da memória de quem saiu vivo. E não foi só isso: ainda não se sabe ao certo a dimensão de alcance dos prejuízos causados aos rios, peixes, árvores e humanos, à vida de Minas Gerais, pra baixo e pra cima

O dia 5 de dezembro de 2015 foi uma consequência de uma série de medidas irresponsáveis de uma empresa de mineração. 

Mas… o que isso tem a ver com abelha?

As empresas de mineração no país têm papel crucial no desenvolvimento de políticas ofensivas ao meio ambiente. Políticas capitalistas porque nas filas de prioridades dessas empresas, quem provoca a deficiência tem preferência. E ainda saem impunes por isso.

A mineração causa a dispersão de partículas durante quebras e desmontes de rochas e a queima de combustível. Além disso, vibrações no solo e outras modificações de estruturas das rochas também liberam materiais prejudiciais ao meio ambiente. Estes materiais particulados em grandes quantidades são tóxicos e responsáveis por uma série de impactos negativos nos ecossistemas. As substâncias acabam depositadas na vegetação, no solo e na água.

Uma pesquisa desenvolvida pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP)*  em uma região de Minas Gerais com alta atividade mineradora mostrou mel e o pólen de colônias de jataí com presença de metais tóxicos.

Muitos dos elementos químicos presentes nos produtos da abelha mostraram-se com concentração acima do limite considerado tóxico para consumo humano. Algumas colônias de jataí presentes na área de amostragem não sobreviveram

Foi um dos estudos pioneiros que utilizaram uma espécie nativa, e não do gênero Apis, para indicar presença de contaminadores no meio ambiente. A autora, Nathalia de Oliveira, justifica que características exclusivas às abelhas nativas podem aumentar a eficácia no resultados das pesquisas. São elas:

Jataí coletou néctar com elementos químicos tóxicos em Minas Gerais (Foto: Julio Pupim)

 

1: ampla distribuição geográfica

2: fácil aclimatação

3: diversidade de plantas visitadas

4: espécies pouco agressivas e de fácil manipulação

5: polinização de flores de tamanho menores

 

 

Os resultados indicam a falta de medidas de proteção ao meio ambiente por parte das empresas mineradoras. A deficiência em pesquisas de bioindicadores no país também dificulta a reivindicação de maior controle da poluição. A utilização dos produtos de abelhas nativas como bioindicadores e medidores de substâncias nocivas à saúde humana e ambiental demonstrou ser um campo amplo e eficiente a ser explorado.

O estudo conclui que “muitas empresas tomam medidas generalizadas para qualquer empreendimento que gera impacto, como “reflorestar” áreas degradadas, deixando de colocar em prática muitas das propostas que foram elaboradas,muitas das quais feitas apenas para constar no licenciamento e este ser liberado”.

 

*As informações do texto foram coletadas no estudo “Seriam as Abelhas sem Ferrão Boas Amostradoras Ambientais de Contaminação Atmosférica por Particulados Atmosféricos?”, pesquisa de Nathália de Oliveira Nascimento.

 

 

Jornalista graduada pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).
Autora do livro-reportagem “Doce Sobrevida – apicultura como alternativa no assentamento Taquaral”.
Acredita nas palavras e na sobrevivência das abelhas.

0 Replies to “Como a jataí pode ser útil no combate à poluição de mineradoras

  1. Júlia, pense no quanto os meliponicultores de um município poderiam contribuir se fosse criado um projeto que analisassem material das colônias que estão na áreas urbanas. Poderiam servir de uma ferramenta para a saúde humana de todos os municípios.
    Um dia chegaremos lá, hoje não fazemos nem prova de resíduos em alimentos e água.

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