Se aprovado, o “Pacotão do Veneno” afetará agressivamente a frágil e deficiente proteção às abelhas nativas do Brasil.

 O Projeto de Lei 6299/2002 , conhecido como “Pacotão do Veneno”, flexibiliza regulamentações já consideradas pouco rígidas no controle do uso de agrotóxicos. Como se não bastasse o Brasil ser o maior consumidor de agrotóxicos do mundo.  Como se não fosse exaustiva a quantidade de pesquisa científica apontando os inúmeros malefícios ao corpo humano causados pelos 7,5 litros de agrotóxicos consumidos por brasileiro no período de um ano. A fins de ilustração: em 2017, pesquisadores da ONU apontaram que 200 mil mortes por ano são decorrentes do uso de pesticidas.

Mas vamos entender como o aumento no uso de agrotóxicos e pesticidas atinge fatalmente as abelhas nativas.

A relação entre a mortandade das abelhas e os agrotóxicos não é desconhecida no meio científico. Tudo começou com o Transtorno do Colapso das Abelhas*, fenômeno identificado nos Estados Unidos no ano de 2009, com o desaparecimento e morte de enxames inteiros. Hoje, o problema assola o mundo inteiro. As causas?  Monocultura e o uso intensivo de agrotóxicos.

A monocultura porque a dieta destes insetos inclui plantas dos mais diversos grupos e garante uma alimentação balanceada. A falta de nutrientes pode acarretar na baixa imunidade e consequente enfraquecimento da colônia.

A grande maioria dos inseticidas utilizados em lavouras, em especial os neonicotinoides, são neurotóxicos e danificam o sistema nervoso central das abelhas quando estas realizam a colheita do néctar e do pólen nas flores das plantas com insumos.

É por este motivo se chama “desaparecimento” das abelhas e não “morte”.

Primeiro, desaparecem pela perda da capacidade de voltar para casa. Depois, dependentes da colmeia,  morrem, solitárias e sem direção. O motivo para a denominação do problema dá um tom ainda mais melancólico para a situação.

O pesquisador David de Jong, em seu trabalho “Situação da sanidade das abelhas no Brasil”, mostra que no país foram detectados a presença de inseticidas do tipo fipronil, que, como os neonicotinoides, deixam doses sub-letais no pólen das plantas.

No início de 2017, o Greenpeace divulgou um relatório que aponta outros malefícios causados pelos neonicotinoides.

Foi constatado que existe risco de exposição do pólen e néctar de plantas tratadas pelos pesticidas causando letalidade em abelhas adultas, além da contaminação de solos agrícolas, morte de insetos aquáticos e ligações com a menor incidência de borboletas e pássaros insetívoros na área afetada. Há ainda o risco de exposição e absorção destes pesticidas, a partir da poeira e da propagação de sementes tratadas. Baseada neste relatório, a organização solicitou a proibição completa destas substâncias na Europa. Em 2013, a União Europeia proibiu parcialmente a sua aplicação nas lavouras. Neste ano, baniu o uso.

Enquanto isso, o Brasil retrocede.

Atualmente, a regulamentação de insumos agrícolas é realizada por três entidades. A Anvisa e o Ibama são  responsáveis pela análise de risco à saúde humana e ao meio ambiente, respectivamente. Já o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) define a eficácia do agrotóxico. A nova lei determina que apenas o Mapa será o agente responsável pela regulamentação do produto. As outras duas organizações perderão poder de veto sobre o registro do insumo.

Ou seja, o que já não funciona com eficácia, visto a presença no mercado de insumos agrícolas nocivos à saúde humana e ambiental, deixará de existir por completo.

E como isso afeta as abelhas nativas?

O Transtorno do Colapso das Abelhas foi identificado e estudado em abelhas com ferrão,  as Apis mellifera, altamente afetadas pelos agrótoxicos, mesmo sendo conhecidas pela grande capacidade de
adaptação às diferentes condições climáticas e geográficas impostas pelo homem.

As abelhas nativas brasileiras se mostram ainda mais sensíveis.

Estudos comparativos* sobre a suscetibilidade de espécies da fauna brasileira evidenciaram a alta toxicidade de diferentes ingredientes ativos presentes em insumo agrícolas:

Confira algumas espécies e os correspondentes ingredientes de pesticidas que apresentaram alto nível de toxicidade:

Irapuã (Trigona spinipes): permetrina, heptacloro, dieldrina, cipermetrina, endossulfam, malationa, acetato, carbaril e fenvalerato

Irapuã (Foto: Carlos Asanuma)

Tubiba (Scaptotrigona tubiba) : deltametrina, triclorfom e malationa 

Tubiba (Foto: Cleiton Geuster)

Mandaçaia (Melipona quadrifasciata) : deltametrina e metamidofós

Uruçu  (Melipona scutellaris)  e Mandaguari (Scaptotrigona postica) : fipronil e imidacloprido 

Uruçu (Foto: Reprodução)

 

Estes ingredientes ativos de insumos agrícolas afetam processos celulares das espécies e impactam a longevidade, comportamento e fisiologia das abelhas.  Também foram identificados danos no processamento de informações e deformações em larvas.

As pesquisas não abrangem por completo o extenso universo das abelhas nativas do Brasil, mais de 1.500 espécies. Os resultados preliminares, entretanto, já apontam dados assustadores.

O estudo “Enfraquecimento e perda de colônias de Abelhas no Brasil: Há casos de CDD?” mostra que são escassos os levantamentos sobre o impacto dos agrotóxicos nas abelhas nativas. Quando feitos, são pontuais e efetuados especialmente nas regiões Sul e Sudeste. A pesquisa conclui: “Pouco se conhece sobre a situação sanitária dos apiários do Centro-Oeste, Norte e Nordeste do Brasil. Também, nada se conhece sobre a situação sanitária dos meliponários brasileiros, das colônias de abelhas nativas do Brasil ou de colônias de Apis mellifera que se encontram na natureza”. 

*No Brasil, o movimento Sem Abelha Sem Alimento realiza ações pela conscientização do problema.  A campanha é organizada pelo projeto Bee or Not to Be, fundado pelo professor aposentado da USP, Prof. Dr. Lionel Gonçalves. O especialista afirma que, caso medidas não sejam tomadas, as abelhas serão extintas até 2035.

** Citados no artigo “Enfraquecimento e perda de colônias de Abelhas no Brasil: Há casos de CDD?“, de Carmen Sílvia Soares Pires, Fábia de Mello Pereira, Maria Teresa do Rêgo Lopes, Roberta Cornélio Ferreira Nocelli, Osmar Malaspina, Jeffery Stuart Pettis,  e Érica Weinstein Teixeira.

Jornalista graduada pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).
Autora do livro-reportagem “Doce Sobrevida – apicultura como alternativa no assentamento Taquaral”.
Acredita nas palavras e na sobrevivência das abelhas.

0 Replies to “Como o “Pacotão do Veneno” põe em risco as abelhas nativas

  1. É lamentável o que acontece com a natureza quando o uso indiscriminado de agentes nocivos são aplicados sem controle.

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