Italiano radicado na capital sul-mato-grossense implantou Sistemas Agroflorestais em antigo asilo-colônia de lepra

As grades que cercam o espaço que abriga o Hospital São Julião eram mais significativas na década de 1940. O hospital foi asilo-colônia de portadores de hanseníase, popularmente conhecida como lepra – doença sem cura à época.

Os flagelados pela doença altamente contagiosa eram vítimas de campanhas desumanas do governo, que contava com apoio irrestrito da imprensa e de civis. Os doentes forçados ao isolamento foram amparados apenas a partir de 1969, após organização de voluntários que tinham como missão de vida servir ao próximo, sem distinções.

Entre eles, Bruno Maddalena – italiano de nascença, brasileiro de coração. Bruno fez raízes em solo tropical – este que hoje rega e planta como ação ativista pela preservação do meio ambiente.

O tempo, impulsionador de melhores políticas públicas de saúde e infeliz testemunha da crescente degradação ambiental, transformou a antes opressora distância do local em diferencial. É área privilegiada por exuberante paisagem natural, proporcionadora de uma qualidade de vida dificilmente encontrada em meio à poluição do “perto” da cidade.

Atualmente, além de ser referência em tratamento humanizado, o antigo refúgio de hansenianos abriga algumas das ações pioneiras em agrofloresta na cidade de Campo Grande (MS).

A extensa área do hospital abriga uma escola estadual, auditório, prédios de suporte e logística, horta, pasto, plantações convencionais, e casas de alguns dos funcionários. Uma delas é a de Bruno, um dos responsáveis pela manutenção do hospital há mais de 30 anos.

Área do hospital é extensa

Ao fundo dela, três sistemas agroflorestais foram implantados e cultivados. Bruno intercala seu emprego com ações de sustentabilidade e educação ambiental no complexo hospitalar. Além dos sistemas, também realiza trabalhos de apicultura e meliponicultura – atividades tão importantes para a manutenção da biodiversidade ambiental.

Bruno realiza ações em prol do meio ambiente

Hoje, sonha com o dia em que o hospital recicle todo resíduo orgânico utilizado e seja 100% abastecido por produtos orgânicos cultivados de maneira sustentável. “Tento conscientizar os colegas e a administração para que aos poucos se realize uma conversão agroecológica nas atividades diárias do hospital”, resume Bruno.

Tudo começou após a leitura de uma encíclica do Papa Francisco, “Louvado Sejas – Sobre o Cuidado da Casa Comum”, clemência do pontífice por uma atitude responsável da humanidade para com o meio ambiente. Inspirado, Bruno deu início às ações em prol da terra onde mora.

Considera-se abençoado pela riqueza de fauna e flora que o cerca e é motivado pelo o que considera a “beleza” do contato com a natureza. Sentido este aguçado após ter realizado curso com Ernst Gostch, pai da agricultura sintrópica, no qual processos naturais são traduzidos para as práticas agrícolas.  As áreas se transformam altamente produtivas e, principalmente, independentes de insumos externos. É um sistema que favorece a vida, promove a biodiversidade e a saúde do planeta.

O trabalho é coletivo e os resultados também. O primeiro Sistema Agroflorestal (SAF) foi iniciado com a ajuda de quatro vizinhos de Bruno em julho de 2016, em uma área de 400 m² de pasto degradado e com a utilização de alguns insumos externos. “Enquanto as árvores plantadas de mudas e semente cresciam, em novembro estávamos colhendo muitas hortaliças e aboboras, e isso foi bem animador”, conta. A área foi expandida para mais de 800 m² de solo fértil que abriga árvores, canteiros e até plantação de mandioca. Tudo sem a utilização de insumos artificiais.

Bruno é também o responsável pela coleta de resíduos sólidos do hospital. Os orgânicos são levados para um sistema de compostagem cujo produto final é utilizado como insumo nos sistemas.

Em 2017, a realização de dois cursos sobre o sistema ministrados pelo engenheiro florestal João Gilberto Milanez possibilitou a criação de mais dois SAF – juntos, são cerca de dois mil m² de consórcios diversos, com leguminosas, árvores e hortaliças em crescimento e produção em sintonia com a saúde ambiental e humana.

A semente do cultivo e consumo consciente dentro do hospital foi plantada e os frutos já estão sendo colhidos. Ambientes antes inóspitos se transformam em âncoras e berços de ações benéficas ao Planeta Terra e aos seres humanos. Bruno nos inspira a começar a agir.

SAF em agosto de 2016
SAF em novembro de 2016
SAF em 2017
Colheita de abóboras

 

 

Jornalista graduada pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).
Autora do livro-reportagem “Doce Sobrevida – apicultura como alternativa no assentamento Taquaral”.
Acredita nas palavras e na sobrevivência das abelhas.

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